Endividamento
e cidadania foi o tema do seminário promovido pela
Ouvidoria Geral da UFRJ, no último dia 17, no Centro
Cultural Horácio Macedo, o Roxinho. Além de
especialistas da UFRJ, estiveram presentes também professores,
magistrados e representantes de classe de diversas partes
do país. A
crise econômica internacional também foi pauta
de discussão do evento. Para a professora Cláudia
Lima Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
as universidades públicas podem apontar saídas
para minimizar esses efeitos.As
dívidas contraídas pelos servidores públicos
através do crédito consignado foi outro assunto
abordado. A
juíza Clarissa Costa Lima deu dicas de como evitar
o
endividamento.
Professora
propõe soluções para endividamento
A
Ouvidoria Geral da UFRJ realizou, no dia 17 de outubro,
o Seminário Endividamento e Cidadania - A questão
do superendividamento: prevenção e tratamento,
que reuniu entre outros, procuradores, representantes do
sindicato e ouvidores. O evento apresentou pesquisas e propostas
relativas ao superendividamento, noções sobre
os principais direitos e deveres referentes aos serviços
financeiros e as regras sobre contratos de crédito.
Foram exibidas ainda alternativas viáveis e juridicamente
fundamentadas para resolver a grave condição
econômica financeira que vem afetando um número
considerável de pessoas.
A mesa de abertura foi composta pela professora Cristina
Ayoub Riche, ouvidora geral da UFRJ; professor Sergio Luis
de Souza Carneiro, procurador geral da UFRJ; professor Roberto
Lehrer, representante do Sindicato Nacional dos Docentes
das Instituições de Ensino superior (ADUFRJ);
professora Maria Cristina Miranda da Silva, presidente da
ADUFRJ Sessão Sindical dos docentes da Adufrj e Francisco
de Assis dos Santos, coordenador do sindicato dos trabalhadores
em educação da UFRJ (SINTUFRJ).
Cristina Ayoub Riche deu início à solenidade
enaltecendo a importância do evento: Vivemos mundialmente
uma crise de crédito humano, financeiro, bancário
e consignado. Vivemos uma crise de valores e é por
acreditar na universidade como fórum por excelência
da cidadania e da transformação que a ouvidoria
geral pôde contar com a presença de todos os
especialistas que aqui se encontram para buscarmos alternativas
e soluções juridicamente viáveis para
o tratamento e prevenção do superendividamento.
Esse problema afeta a auto-estima do cidadão, afeta-o
em todos os sentidos, declarou.
Durante a cerimônia de abertura, a ex-aluna de direito
da UFRJ Clarice Zeitel Vianna Silva, 26, premiada pela Organização
das Nações Unidas para a Educação,
a Ciência e a Cultura (UNESCO) pela sua redação
Pátria Madrasta Vil foi convidada a participar para
lê-la aos presentes.
Roberto Lehrer destacou a gravidade do problema e as principais
causas associadas a ele: Este evento tira da sombra um grande
problema vivido por milhões de servidores em todo
o país como se fosse um drama pessoal, uma incompetência
pessoal, uma má gestão das finanças
pessoais, quando sabemos que esse problema tem uma magnitude
muitíssimo maior. Nós temos consignados 1,3
milhões de servidores distribuídos em 1080
instituições de crédito de todo tipo
movimentando algo como cinco bilhões por ano no país.
Essas pessoas acabam se endividando para dar conta das despesas
cotidianas, tais como medicamento extra, uma pessoa com
problema de saúde, educação dos filhos.
A maioria se endivida por necessidade e não por consumo
de luxo, informou.
O
problema do superendividamento
A
primeira palestra, intitulada Novos desafios do direito do
consumidor: o problema do superendividamento foi proferida
por Claudia Lima Marques, professora da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). Durante seu pronunciamento a
palestrante apresentou as pesquisas realizadas há alguns
anos com os Estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e
São Paulo sobre o superendividamento e o perfil do
endividado. Claudia
Marques afirmou que o estudo teve início em 2003 à
época das comemorações do Instituto Brasileiro
de política de Direito do consumidor (Brasilcom) pelos
15 anos do código de defesa do consumidor. Queríamos
identificar na legislação o que faltava para
a comemoração dos 15 anos do código ser
perfeita. Identificamos vários temas, serviços
públicos, contratos bancários em geral e em
todos esses temas começamos a fazer projetos. Fomos
ver no direito comparado como estava sendo tratado o tema
da falência civil, o superendividamento do consumidor
pessoa física e ao analisar o direito comparado nós
nos deparamos com outras soluções, soluções
do tratamento coletivo, do problema não mais com essa
ótica de tabu, espécie de falha pessoal, mas
como um dos problemas normais de uma sociedade desenvolvida
de consumo, afirmou. As
pesquisas realizadas no âmbito nacional com apoio da
defensoria pública do Rio de Janeiro, do Rio Grande
do Sul e outros parceiros e no âmbito internacional
foram reunidas no livro O Direito do Consumidor endividado
que pode ser encontrado na biblioteca direito do consumidor.
Estamos quebrando o tabu do superendividamento. Além
disso, invertemos a lógica porque no Brasil sempre
se diz que precisa de uma lei para qualquer coisa e nós
chegamos à conclusão de que nós precisamos
de uma lei, mas o código de defesa do consumidor e
a legislação que vigora se bem interpretada
permite uma atividade de conciliação, de solução
dos problemas dos consumidores individualmente com a presença
do Estado para ajudar -, declarou a palestrante.
Os
dados retirados da Federação Brasileira de Bancos
(FEBRABAN) indicam que o crescimento bancário é
o triplo do normal. Enquanto a agricultura cresceu em média
2%, a indústria 3%, serviços 4,6%, todo o setor
bancário cresceu em 2007 cerca de 9,7%. Os empréstimos
individuais cresceram oito vezes e 83% do crédito consignado
é destinado a pessoas de um a três salários
mínimos. Os
resultados da pesquisa realizada no Rio Grande do Sul mostraram
que há uma feminilização da pobreza,
além de predominância de solteiros, com idade
entre 30 e 50 anos, geralmente autônomos. Os tipos de
credores costumam serem lojas, bancos, cartões de crédito,
que somados, são a maioria, declarou Claudia Marques.
A
palestrante defendeu ainda uma separação entre
consumidores passivos e ativos. Os primeiros se referem àqueles
que sofreram acidente da vida e não abusaram do crédito
e os outros são os que não trabalham bem com
o seu orçamento ou com a possibilidade de crédito.
Chegamos
ao problema que parece acontecer de uma mistura entre a pobreza
e o superendividamento, portanto no nosso projeto de lei nós
vamos nos concentrar nos contratos de crédito para
evitar que se possa misturar em demasia esses dois temas -,
informou a palestrante.
Já
a pesquisa do Rio de Janeiro foi feita com foco na classe
média e o que revelou é que a classe média
ganha mais crédito e a renegociação é
mais difícil porque eles têm dados piores sobre
tratamento bancário. O
código de defesa do consumidor é uma grande
lei, mas ela não é focada para esse problema
que precisaria de uma legislação externa, com
ela em diálogo, mas sem dúvida muito especializada.
Enquanto essa legislação está sendo pensada,
nós achamos importante assegurar a intervenção
do estado, pois no Brasil os exemplos que deram mais certo
são os que a presença do estado está
assegurada. Eu acho que é uma mudança de paradigma
do tratamento e da prevenção do superendividamento
que deve ser pensada. Hoje é um paradigma muito liberal,
muito individual, é uma idéia de culpa própria
do consumidor. No mundo inteiro, em sociedades consolidadas
esse é um problema social, político e também
jurídico -, concluiu a palestrante.